quarta-feira, 18 de abril de 2012

Resenha: Vítimas do Silêncio


Editora: Universo dos Livros
Autora: Janethe Fontes
Origem: Brasileira
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 192
Acabamento: Brochura

Sinopse: Uma garota é vítima de um estupro e tenta reconstruir sua vida. Porém, o criminoso está mais perto do que poderia imaginar e continua perseguindo pessoas que ela jamais gostaria de ver envolvidas nessa história. Quando finalmente ela acredita ter encontrado o caminho da felicidade e esquecido aquela época tão difícil, o passado volta para acertar as contas e ela só tem uma alternativa: encontrar o criminoso antes que ele faça outras vítimas.

Análise

“Margarida fez um esforço para evitar que as lágrimas caíssem, enquanto pensava no quanto a vida pregava peças nas pessoas. Pois, há quase oito anos, chegara a São Paulo grávida e totalmente sozinha. Tivera que vender até um precioso bem que sua avó havia lhe dado para que pudesse pagar o aluguel de um velho, apertado e mal cheiroso quarto de pensão [...]”
—Pág. 163.

Grandiosas saudações, leitores do Policial da Biblioteca! Como estão as leituras de vocês, meus caríssimos amigos? A minha lista de livros para ler só vem aumentando, isso é uma maravilha! Contudo, criei algumas “regras” para definir a ordem em que lerei os livros. Por exemplo: autores nacionais são passados a frente na lista sempre. Acho que esse meu pequeno gesto é uma forma de reconhecer o trabalho dos escritores de nossa nação e estimular a produção literária, além de incentivar o surgimento de novos leitores, em nosso país que lê tão pouco. Vocês talvez estejam pensando: “Mas como um blogueiro que lê e escreve sobre livros pode ter tamanho poder?” Pois vou lhes dizer...quando temos um trabalho reconhecido e valorizado tendemos a nos sentir mais estimulados a trabalhar, correto? Quando conversamos com alguém sobre algo muito bom e que é de nosso próprio país nos sentimos orgulhosos de que algo tão bom seja de nossa nação e muito provavelmente vamos à procura disso, correto? Então, eis o poder dos blogs literários! Como não poderia deixar de ser, depois destas palavras, a resenha de hoje é do livro de uma autora nacional (Janethe Fontes). Sem mais demora vamos às minhas impressões deste livro...
Quero começar comentando sobre a relação da capa do livro com o seu conteúdo, pois foi algo que me chamou demais a atenção. A imagem da capa, antes mesmo que eu visualizasse sequer uma letra de suas páginas, já me fez imaginar que a trama pela qual iria me aventurar deveria ser dotada de uma carga emocional extremamente pesada e de grande sofrimento, contudo quando comecei a dar meus primeiros passos por este livro tive uma surpresa. Apesar de o enredo ter um pano de fundo que é um tema muito sério e complicado de abordar com pessoas que foram vítimas (o estupro), a narração também possui momentos de descrições belíssimas e diálogos que conseguem ir além da tensão do tema a partir do qual o livro se desenvolve, mas que não é o seu foco. A maneira como a autora conseguiu colocar nas páginas momentos de grande tensão lado-a-lado com instantes de profunda doçura e demonstração de sincero amor, sem que as diversas emoções que preenchem as páginas da obra parecessem uma mistura confusa, é prova mais do que suficiente de talento, afinal não é fácil conseguir guiar o leitor por diversos níveis emocionais e ainda conseguir mergulhá-lo em cada um deles, principalmente quando de uma página para a outra ocorre essa transformação.
Nessa história acompanhamos Margarida Esteves, que inicialmente possui 17 anos, uma garota que se mostra nesse primeiro encontro uma figura fragilizada pelo trauma que viveu e que desolada procura fugir do mal que está bem próximo dela, contudo a sombra de seu opressor parece persegui-la onde quer que vá e desta maneira fugir se demonstra como uma tentativa vã de encontrar a cura para si mesma.
Margarida ao longo do livro enfrenta muitos dissabores, mas também encontra refúgio ao lado de boas pessoas que de uma forma ou outra lhe ajudam a se desenvolver e os personagens secundários não são realmente secundários. Okay, vou lhes explicar melhor. É o seguinte: normalmente as pessoas tendem a considerar os personagens secundários como figuras de pouco destaque nas tramas dos livros, mas a Janethe conseguiu criar personagens secundários que tem tanta importância quanto a própria Margarida e que são fundamentais para o fluir das páginas nos brindando com pensamentos e lições de alto valor. Um excelente exemplo é William, um jovem que depois de um acidente em um salto de paraquedas ficou paraplégico. William, que antes era o ânimo para a vida em pessoa, se sente preso para sempre à sua atual condição e sua falta de perspectiva para a vida acabou lhe arrastando para um estado de constante de desânimo, porém a terna Margarida será como um raio de sol na vida de William e desempenhará um papel fundamental na sua transformação. Achei tão belo como a situação entre William e Margarida nos mostra que há coisas que não acontecem por acaso e que coisas muito ruins também podem nos conduzir à contextos que nunca imaginamos e uma vez dentro deste contexto temos a oportunidade de gerar uma mudança para o bem na vida de uma pessoa. Obviamente que o mal nunca é algo desejável, porém uma vez que sofremos uma injustiça ainda temos o poder de extrair lições que nos tornaram seres humanos melhores e capazes de amar verdadeiramente os nossos semelhantes.
Quando tudo parecia bem na vida de Margarida, o fantasma de seu passado retorna e dessa vez ameaça pessoas que lhe são próximas e muito amadas, assim ela percebe que fugir nunca foi a solução para o seu problema e com determinação opta por enfrentar o monstro que a persegue, olhar em seus olhos que refletem um abismo pérfido e pôr um fim em sua maldade. Nesse ponto Janethe conseguiu narrar cenas de uma sensibilidade tão grande que me fizeram lacrimejar e algumas vezes fechar o livro para me recompor. Sim, eu admito, às vezes choro com livros. Não acho isso uma demonstração de fraqueza emocional, mas um sinal de que a história é tão bem escrita que pode, mesmo sendo uma ficção, gerar apreensão em nossos corações e uma tristeza autêntica. Muitos leitores, estou falando especificamente dos homens, não confessam que se sensibilizam com livros, alguns acham que isso é uma declaração de fragilidade e que assim estão se equiparando com seres fracos. Acho uma bobagem pensar assim, mas infelizmente o nosso mundo está tão bruto e sem amor devido a pessoas que pensam que ter sentimentos é ser um homem inferior. Janethe, parabéns! Você conseguiu me fazer chorar com seu livro.
Paralelamente ao caso principal do livro, a autora conseguiu narrar alguns eventos que por contrastar drasticamente com os momentos de beleza do livro mostram de forma tão explícita como o ser humano pode ser seu próprio lobo e como o homem pode ser o maior dos monstros, há personagens pelos quais o leitor não conseguirá sentir outra coisa além de ódio e torcerá pela punição deles.
O livro não é unicamente um alerta sobre como a violência à mulher é um mal que deve ser combatido pelas pessoas que acreditem em um mundo melhor, mas também é uma história sobre superação, sobre como o amor pode ser uma força construtiva indispensável para que as pessoas se curem, sobre como  fugir de algo nunca é a solução, devemos sempre enfrentar nossos demônios, e sobre como acreditar e lutar por um final feliz é possível mesmo em um mundo em que o sol nem sempre brilha para todos. Recomendo este livro! Boa leitura à todos! Até outro momento!

18 comentários:

  1. Não conhecia o livro nem a autora, mas assim como vc ao ver a capa (ela chorando com a maquiagem toda borrada) deu para ver que seria um livro com assuntos sérios e mais densos. Ainda bem que a autora conseguiu colocar uma leveza nisso.
    Parabenizo muito vc por colocar os livros nacionais a frente de outros, realmente precisamos prestigiar nossos autores.

    Bjus

    Nâna

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    1. A Janethe Fontes foi uma ótima descoberta para mim dentre os autores nacionais. O meu gesto de ler sempre os autores nacionais antes dos demais é o mínimo que poderia fazer para incentivar a produção literária no Brasil. Agradeço o seu comentário, Ariana.

      Beijos!

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  2. Também não conhecia livro e autora. O tema é bastante oportuno. A violência à mulher é infelizmente uma tônica que nos remete a sociedades antigas, no qual a mulher era identificada como um mero objeto (coisa). Parece que não vencemos tal período.

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    1. Ótimo descobrir novos autores e livros, né? Realmente o tema é de grande importância em nossa sociedade que ainda teima em preservar certos "primitivismos".

      Abraços!

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  3. Eu já ouvi falar bastante desse livro. Sigo a autora no Twitter há algum tempo, apenas não tive ainda a oportunidade de conhecer seu trabalho. Já li resenhas excelentes sobre o livro e que me fazem pensar que esse é o tipo de leitura que eu gostaria de fazer.
    Gostei de sua resenha, foi muita verdadeira e traduz o q vc realmente sentiu ao lê-lo.
    Tenha um ótimo final de semana ^^

    @morenalilica
    http://doceinsensatez.com/blog

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    1. Então, esse livro é muito bom! As resenha falam palavras sinceras. Esse livro desperta sentimentos profundamente, não poderia ser diferente...é muito bem escrito! Tenha um ótimo final de semana também, Lilian!

      Abraços!

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  4. Noossa....Essa capa acaba comigo...É muuuito demais...
    Adoro livros com capas assim...sei que não devemos julgar um livro pela capa, mas quase sempre eu faço isso...rsrsrs...e ao julgar a capa desse livro, eu com certeza o compraria...
    amei a história...realmente, me impressionei.
    já tinha lido algumas resenhas antes...e há um tempinho ( tempãão) estava pensando em comprar o livro...mas fui adiando por causa de uns lançamentos aqui, outros ali...e agora, a promoção do blog...vamos fazer assim: se eu não ganhar, compro o livro!!! :)

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    1. Sim, a capa é um capricho!
      Julgar um livro somente pela capa é um erro mesmo, contudo o deleite da experiência da leitura passa pela capa, logo é perdoável essa nossa maneira de observar os livros.
      Okay, se não ganhar compre mesmo o livro. Vale a pena! :D

      Abraços!

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  5. me parece ser um otimo livro, e ainda bem que existem muito autores nacionais com otimas produções e que felizmente estao conseguindo ganhar dinheir e viver de escrita...

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    1. Sim, é um ótimo livro. Se puder comprá-lo, não irá se arrepender! Garanto! Uhum, no Brasil os escritores estão conseguindo aos poucos se manterem mais de sua obras. Isso é bom para nós leitores também, afinal quando eles possuem mais tempo para escrever isso significa que teremos mais livros para ler :D

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  6. Este livro é mesmo muito tenso, uau!
    Imagino como vou me sentir lendo, só sua resenha já me passou um arrepio.Por outro lado, fico mais tranquila em saber que a linguagem é tranquila e tenta amenizar a tragédia.
    Gostaria muito de ler esse livro.

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    1. Sim, tensão é uma boa palavra para definir "Vítimas do Silêncio". Sim, a linguagem usada sabe alternar momentos de profunda pressão com instantes de alívio para não deixar o leitor tão sobrecarregado sentimentalmente. Boa sorte na promoção. :)

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  7. Virginia de Oliveira17 de maio de 2012 09:58

    O livro aborda um assunto polemico, a violência contra a mulher infelizmente ainda existe. A sua resenha me deixou curiosa, gostaria muito de ler esse livro e ver como foi que a autora escreveu sou esse assunto.

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    1. Sim, um assunto polêmico, mas que ainda é muito pouco denunciado pela nossa sociedade. Leia, mesmo caso não seja sorteada. Garanto que não vai se arrepender!

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  8. Nossa. Adorei a resenha. Juro que me deu vonde de ler esse livro agora mesmo.
    E surpreendendo o quando vc ficou envolvido com o livro. E ainda por cima e de uma autora brasileira.
    Gostei muit da resenha. Vc capitou a essencia do livro de ma forma tão verdadeira.
    Bjos...

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    1. Obrigado pelo comentário. kkkkkkk Se você sentiu vontade de ler o livro, a minha resenha obteve sucesso.
      Sim, os autores brasileiros são muitos bons, só que poucas pessoas ainda "sabem" disso.
      Sempre procuro em minhas resenhas mergulhar bem no livro para comentar.
      Beijos!

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  9. Traumas tao profundos como este que aconteceu com a personagem do livros sao dolorosos. Colocar a tona sentimentos que nos machucam é sempre dificil e ao serem contados é facil perceber que as pessoas se interessam e se preocupam com o caso. A resenha deste livro mostra que ele sera um sucesso e despertara nos leitores muita curiosidade e atenção. Adorei a resenha! Pretendo te-lo em breve! =D

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    1. Sim, traumas são coisas difíceis de tratar. São como marcas ou feridas que mesmo quando tentamos curar, costumam abrir ainda mais, contudo são coisas necessárias de serem abordadas para que a vida continue. Isso é exatamente o que a personagem principal nos passa. Sim, esse livro é maravilho. Não é à toa que recebeu elogios meus e sou muito sincero em minhas análises. Obrigado pelo seu comentário. Compre mesmo...ah, você pode ver se encomenda com a autora para conseguir seu exemplar autografado! :)

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