Primeiro acontece o baque inicial: “Estou cego”. Simples assim.
Em seguida instala-se o sentimento de perda de identidade, a sensação
de ser um ponto sozinho em meio a multidão que tenta acelerar seus
carros, outrora parados, esperando pelo sinal verde para que possam
dar prosseguimento a suas vidas, em grande parte, superficiais e sem
significado. A premissa inicial de “Ensaio sobre a Cegueira” do
autor português José Saramago é tão perturbadora quanto eficiente
no que se diz respeito a “enxergar a vida sobre outra perspectiva”.
No romance uma epidemia de proporções assustadoras se espalha numa
cegueira generalizada que logo é apelidada de “Cegueira branca”,
devido ao fato de, diferente da cegueira comum, esta ser uma onde as
pessoas passam a “enxergar” um mundo completamente branco ao
redor delas, como se, nas palavras de um dos próprios personagens,
“estivessem todos mergulhados em um mar de leite”. Não demora
para que a cegueira generalizada transforme completamente o mundo
como nos o conhecemos. Seres humanos são reduzidos a um estado de
primitivismo quase animalesco, onde o caos e a desordem imperam e
apenas os mais fortes (ou seriam os mais adaptáveis?) sobrevivem.
Partindo desse pano de fundo inicial, Saramago constrói um mundo
onde valores éticos são constantemente questionados e revistos,
estereótipos são desconstruídos e a própria noção de cegueira,
como a conhecemos, recebe uma nova conotação, aqui bem mais
aprofundada. A cegueira em “ensaio sobre a cegueira” é muito
mais moral do que física e padece de um negativismo quase palpável,
já que se caracteriza pelo excesso de luz e não pela falta dela,
como se não houvesse luz no fim do túnel, como se essa própria luz
é que fosse responsável pelo sentimento de alienação
generalizado...
