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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Resenha: Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago


Primeiro acontece o baque inicial: “Estou cego”. Simples assim. Em seguida instala-se o sentimento de perda de identidade, a sensação de ser um ponto sozinho em meio a multidão que tenta acelerar seus carros, outrora parados, esperando pelo sinal verde para que possam dar prosseguimento a suas vidas, em grande parte, superficiais e sem significado. A premissa inicial de “Ensaio sobre a Cegueira” do autor português José Saramago é tão perturbadora quanto eficiente no que se diz respeito a “enxergar a vida sobre outra perspectiva”. No romance uma epidemia de proporções assustadoras se espalha numa cegueira generalizada que logo é apelidada de “Cegueira branca”, devido ao fato de, diferente da cegueira comum, esta ser uma onde as pessoas passam a “enxergar” um mundo completamente branco ao redor delas, como se, nas palavras de um dos próprios personagens, “estivessem todos mergulhados em um mar de leite”. Não demora para que a cegueira generalizada transforme completamente o mundo como nos o conhecemos. Seres humanos são reduzidos a um estado de primitivismo quase animalesco, onde o caos e a desordem imperam e apenas os mais fortes (ou seriam os mais adaptáveis?) sobrevivem. Partindo desse pano de fundo inicial, Saramago constrói um mundo onde valores éticos são constantemente questionados e revistos, estereótipos são desconstruídos e a própria noção de cegueira, como a conhecemos, recebe uma nova conotação, aqui bem mais aprofundada. A cegueira em “ensaio sobre a cegueira” é muito mais moral do que física e padece de um negativismo quase palpável, já que se caracteriza pelo excesso de luz e não pela falta dela, como se não houvesse luz no fim do túnel, como se essa própria luz é que fosse responsável pelo sentimento de alienação generalizado...